Análise Linguística

Capa

Capa — Análise Linguística

Capítulo 4

Variação linguística

A língua muda. E você muda a língua dependendo da situação.

O mapa que você precisa guardar
Da caixa de ferramentas à pergunta de ouro da prova

Imagine que a língua portuguesa é uma caixa de ferramentas. Você não usa a mesma ferramenta para tudo. Uma situação pede uma ferramenta. Outra situação pede outra. Com a língua acontece a mesma coisa.

Caixa de ferramentas da língua: Nós vamos e A gente vai dizem a mesma ideia.
Mesma ideia. Ferramentas diferentes. Isso é variação.

A língua tem diferentes maneiras de dizer coisas semelhantes.

Essas diferentes maneiras são chamadas de variantes linguísticas.

01 — O que é variação linguística?

É a existência de diferentes formas de usar uma mesma língua.

Forma 1

Nós vamos sair.

Forma 2

A gente vai sair.

As duas frases podem comunicar a mesma ideia. O que mudou? A forma de usar a língua. Isso é variação linguística.

Variação = mais de um jeito de dizer

02 — Mas então “tudo está certo”?

Cuidado. Aqui aparece uma das maiores pegadinhas das provas. Existem diferentes variedades linguísticas, e cada uma pode ser adequada a determinados contextos. Isso não significa que todas as formas sejam igualmente adequadas em todas as situações.

Conversando com um amigo

“A gente se vê depois.”

Escrevendo um documento oficial

“Nós nos encontraremos posteriormente.”

A mesma pessoa fala com o amigo e escreve um documento oficial de jeitos diferentes.
Não é certo ou errado. É adequação à situação.

As duas formas podem existir na língua. Mas a situação comunicativa mudou.

Não existe apenas “certo” e “errado”. Existe também adequação.

03 — Variedade-padrão × variedades não padrão

A sociedade atribui valores diferentes às maneiras de falar.

Não padrão

Frequentemente chamada de popular ou coloquial. Não significa “língua errada”.

Atenção

“Não padrão” não significa “língua errada”. Uma variedade pode ser socialmente estigmatizada e, ainda assim, ser compreensível, sistemática e característica de uma comunidade.

04 — Preconceito linguístico

Imagine alguém ouvindo “Os menino chegou” e dizendo: “Essa pessoa não sabe falar português.” Isso é um julgamento sobre a pessoa baseado na maneira como ela usa a língua.

Preconceito linguístico = julgar a pessoa pela variedade que ela usa

Charge: alguém diz Os menino chegou e outra pessoa julga o falante, não a frase.
O alvo do preconceito é a pessoa — não a frase.

05 — O grande mapa da variação

Se a questão perguntar “por que essa forma linguística apareceu?”, procure primeiro estas quatro pistas.

Lugar · Tempo · Grupo · Situação

Mapa das quatro pistas: lugar, tempo, grupo e situação.
Guarde este mapa. A prova quase sempre aponta para uma destas pistas.
Tempo

A língua de ontem e a de hoje. Variação histórica.

Situação

Com quem e onde você fala. Variação situacional.

06 — Variação geográfica

Lugar

Pessoas de regiões diferentes podem usar palavras, pronúncias e construções diferentes. Uma mesma comida pode receber nomes diferentes. Uma mesma palavra pode ser pronunciada de maneiras diferentes. Isso também pode ser chamado de variação regional.

Pense

Lugar → jeito de falar da região

Mandioca, aipim e macaxeira: a mesma comida com nomes de regiões diferentes.
Regional = de onde você é? A coisa é a mesma. O nome muda.

A maneira de falar de uma comunidade faz parte da sua identidade cultural. Os diferentes falares regionais podem ser entendidos como parte do patrimônio cultural e linguístico de seus grupos.

Regional = “de onde você é?”

07 — Variação histórica

Tempo

A língua muda com o passar dos anos. Uma palavra ou construção que era comum séculos atrás pode desaparecer ou mudar. Por isso, textos antigos podem apresentar formas que hoje parecem estranhas.

Português de ontem → português de hoje

Ontem se dizia vós ou vosmecê; hoje se diz você ou a gente.
Histórica = em que época? Textos antigos parecem estranhos porque a língua andou.

Histórica = “em que época?”

08 — Variação sociocultural

Grupo

Pessoas de diferentes grupos sociais podem usar a língua de maneiras diferentes. Influenciam essa variação: idade, escolarização, profissão, grupo social, comunidade e experiências culturais.

Exemplos

Médico → jargão da medicina · Gamer → vocabulário dos jogos · Adolescente → gírias da geração

Médico, gamer e adolescente: cada grupo tem seu vocabulário.
Sociocultural = de que grupo você faz parte?

Sociocultural = “de que grupo você faz parte?”

09 — Variação situacional

Situação

Uma das mais importantes para a prova. A mesma pessoa pode falar de maneiras diferentes dependendo da situação.

A mesma pessoa fala com o amigo, na entrevista e no documento de jeitos diferentes.
A pessoa é a mesma. A situação mudou — então a língua mudou.
Com um amigo

“E aí! Tudo certo?”

Em uma entrevista de emprego

“Bom dia. Tudo bem?”

Em um documento oficial

“Prezados, encaminho a documentação solicitada.”

A pessoa é a mesma. A língua mudou porque a situação mudou.

Situacional = “com quem eu estou falando e onde?”

10 — Formal × informal

Imagine um botão de volume: às vezes aumenta a formalidade, às vezes diminui. Não significa que uma seja “melhor”. Significa que uma pode ser mais adequada ao contexto.

Botão de volume da formalidade: informal com amigos, formal em situações oficiais.
O volume sobe ou desce. Nenhuma posição é “melhor” — só mais adequada.
Mais informal

Conversa com amigos, mensagens, situações espontâneas.

Frase para decorar

Bom uso da língua = uso adequado à situação.

11 — Oralidade × escrita

Falar e escrever não são a mesma coisa em formatos diferentes. Na fala, a mensagem se constrói enquanto conversamos: pausas, repetições, reformulações, interrupções, hesitações.

Na fala a gente pensa enquanto fala; na escrita pensa, escreve e revisa.
Fala = penso enquanto falo. Escrita = penso antes e reviso depois.
Na fala

“Eu fui lá ontem... quer dizer, anteontem... na terça.”

Na escrita, geralmente há tempo para pensar → escrever → revisar → reescrever.

Fala = penso enquanto falo · Escrita = penso antes e reviso depois

12 — “O que mudou na língua?”

Existem diferentes níveis em que uma variação pode aparecer.

Som → forma → palavra

Três níveis da variação: som é fonética, forma é morfossintática, palavra é lexical.
Se mudou o som, fonética. Se mudou a forma, morfossintática. Se mudou a palavra, lexical.

Ou: som → gramática → vocabulário

13 — Variação fonética

Mudou o som

É quando uma mesma palavra apresenta diferentes maneiras de ser pronunciada, conforme a região ou o grupo de falantes. Se a questão destaca pronúncia, pense primeiro em fonética.

Pense

Mesma palavra → pronúncias diferentes

Fonética = fala / som

14 — Variação morfossintática

Morfo = forma da palavra. Sintaxe = relação entre as palavras na frase.

Morfossintática = mudanças na forma das palavras e/ou na organização gramatical da frase.

Exemplo

Nós vamos. / A gente vai. Não mudou apenas o vocabulário: nós → a gente · vamos → vai.

Morfossintática = forma + frase

15 — Variação lexical

Mudou a palavra

“Léxico” é o conjunto de palavras de uma língua. Em diferentes lugares, um mesmo objeto pode receber nomes diferentes. Se a questão disser “palavras diferentes”, pense em lexical.

Variação lexical = palavras diferentes para nomear a mesma coisa ou ideia.

Lexical = léxico = vocabulário

16 — O mapa completo

Por que mudou?

Lugar → geográfica · Tempo → histórica · Grupo → sociocultural · Situação → situacional

17 — O macete-mestre

Se você esquecer tudo na hora da prova, lembre desta sequência. Dá para reconstruir praticamente todo o conteúdo.

Som → forma → palavra

Lugar → tempo → grupo → situação

18 — Cuidado com a pegadinha

Uma mesma situação pode envolver mais de um tipo de variação ao mesmo tempo. Não tente obrigar cada exemplo a caber em apenas uma caixinha. As classificações podem se cruzar.

Exemplo

Uma palavra diferente usada por uma comunidade de determinada região: lugar → geográfica e palavra → lexical.

Círculos que se cruzam: geográfica mais lexical, como macaxeira no Nordeste.
Não force uma caixinha só. O mesmo exemplo pode ser duas coisas ao mesmo tempo.

19 — Variação não é a mesma coisa que erro

Uso real da língua

“A gente vai amanhã.”

Inadequada à norma-padrão em certos contextos

“A gente vamos amanhã.”

Variaçãodiferentes maneiras reais de usar a língua.
Norma-padrãoreferência de uso valorizada e esperada em determinados contextos formais.
Preconceitodesvalorizar pessoas ou grupos por causa da variedade linguística que utilizam.

20 — A pergunta de ouro

Três perguntas: mudou o quê, mudou por quê, julgou o falante?
Decore esta ordem. Dá para resolver quase qualquer questão do capítulo.
1Mudou o quê? Som → fonética · Forma/gramática → morfossintática · Palavra → lexical
2Mudou por quê? Lugar → geográfica · Tempo → histórica · Grupo → sociocultural · Situação → situacional
3A questão está julgando o falante? Se sim, procure preconceito linguístico.

21 — Mapa mental de 30 segundos

Variação linguística é: diferentes maneiras de usar a língua.

E o preconceito?

Julgar negativamente pessoas ou grupos por sua maneira de falar.

22 — Teste relâmpago

01. Duas regiões pronunciam a mesma palavra de maneiras diferentes.

Resposta

02. Uma palavra usada no século XVI não é mais comum hoje.

Resposta

03. Uma comunidade usa uma expressão que identifica seu grupo social.

Resposta

04. A mesma pessoa fala de maneira diferente com o amigo e em uma entrevista.

Resposta

05. Duas regiões usam palavras diferentes para a mesma coisa.

Resposta

06. Duas formas gramaticais diferentes expressam uma ideia semelhante.

Resposta

07. Uma pessoa é considerada “inferior” porque fala segundo uma variedade estigmatizada.

Resposta

Gabarito

1 fonética · 2 histórica · 3 sociocultural · 4 situacional · 5 lexical · 6 morfossintática · 7 preconceito

Frase-fórmula

A língua varia porque as pessoas, os lugares, os tempos, os grupos e as situações variam. Essa é a ideia central. O resto é classificação.