NEXO · 3º ano · Literatura
Literatura em Língua Portuguesa
Os anos de formação · Da Idade Média ao Humanismo
Literatura medieval → Trovadorismo → Humanismo → Gil Vicente
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Literatura em Língua Portuguesa · 3º ano
Os anos de formação
Da Idade Média ao Humanismo: Trovadorismo, Humanismo e Gil Vicente.
Imagine a Europa há muitos séculos. Não existiam internet, televisão, celular, escolas como conhecemos hoje, nem livros impressos em grande quantidade. A sociedade era organizada de outra maneira. E isso importa porque:
A literatura também nasce do mundo em que as pessoas vivem.
01 — Três ideias para começar
A religião ocupava um lugar central na vida social e cultural.
A Europa se organizava em torno de terras e relações de dependência.
Até o amor possuía regras e comportamentos esperados.
Feudalismo → Teocentrismo → Amor cortês → Trovadorismo
02 — Feudalismo: “você me protege, eu te sirvo”
O feudalismo era uma forma de organização social, política e econômica que predominou em boa parte da Europa medieval. A terra tinha enorme importância. O feudo era uma propriedade territorial. As relações sociais eram baseadas em obrigações e dependências.
Mas existia outro grande poder
Enquanto o poder político era bastante fragmentado entre diferentes senhores, a Igreja Católica possuía uma estrutura mais centralizada.
Religião e cultura tinham enorme influência na sociedade medieval.
Fragmentado entre senhores e feudos.
Mais centralizado — e muito presente na cultura.
A terra organiza a vida. Quem controla a terra controla obrigações.
Essa lógica de serviço reaparece depois no amor cortês: o cavaleiro se coloca como vassalo da dama.
Não comece pelas cantigas. Comece pelo mundo: terra, serviço e fé.
03 — Teocentrismo
Teo = Deus. Teocentrismo é uma visão de mundo em que Deus ocupa o centro da explicação sobre a existência, a moral e os valores humanos.
O que é certo ou errado.
O sentido da existência.
Como as pessoas se organizam.
Deus está no centro da visão de mundo.
04 — E o amor?
Sim. Até o amor tinha regras. Na sociedade das cortes medievais, desenvolveu-se o chamado amor cortês.
O cavaleiro apaixonado deveria demonstrar respeito e dedicação à dama. A relação era comparada à vassalagem: o cavaleiro se colocava em posição de serviço diante da mulher amada.
A dama está acima do cavaleiro.
Ela é idealizada, quase perfeita.
Há uma distância social e afetiva.
O amor muitas vezes era impossível.
Vassalagem feudal
- O vassalo serve o senhor
- Presta lealdade
- Recebe proteção
Vassalagem amorosa
- O cavaleiro serve a dama
- Demonstra dedicação
- Sofre por não alcançá-la
Coita
O sofrimento causado pelo amor recebe um nome importante.
Coita = sofrimento amoroso
O cavaleiro ama, serve e sofre — porque não alcança.
Quando essa lógica entra nas cantigas, nasce a cantiga de amor.
Agora chegamos à literatura
Trovadorismo
Produção literária medieval ligada principalmente às cantigas, compostas para serem cantadas.
Na Península Ibérica, as cantigas eram produzidas em galego-português — língua medieval na origem histórica do português e do galego.
Trovadorismo = cantigas
05 — Quatro tipos para guardar
Voz masculina. Mulher idealizada. Coita.
Voz feminina. Amado ausente. Saudade.
Sátira. Crítica indireta, ironia.
Sátira. Crítica direta, explícita.
Pausa: o mapa do Trovadorismo
Lírico
- Amor: homem → mulher idealizada → coita
- Amigo: mulher → amado ausente → saudade
Satírico
- Escárnio: crítica indireta
- Maldizer: crítica direta
Primeiro reconheça o tipo. Depois explique a lógica.
06 — Cantiga de amor
Um homem.
Uma mulher idealizada.
Como um vassalo apaixonado.
Homem → ama → mulher idealizada → sofre
Ele coloca a mulher acima dele. Ama, idealiza, não consegue alcançá-la e sofre. Palavra-chave: coita.
“Minha senhora é perfeita. Eu a amo, mas não posso tê-la. Por isso, sofro.”
Não precisa decorar o poema inteiro. Você precisa reconhecer a lógica.
07 — Cantiga de amigo
Agora troque uma coisa. Quem fala? Uma mulher — mesmo que o autor real da cantiga fosse, geralmente, um homem. Ela fala sobre seu amigo = amado. O tema mais comum é a saudade e a ausência.
“Onde está meu amado?”
“Quando ele volta?”
Mãe, amigas, natureza.
A linguagem tende a ser mais próxima do universo popular. Também aparecem bastante repetição e paralelismo.
08 — Por que a repetição aparece?
As cantigas eram feitas para serem cantadas. A repetição ajudava a criar ritmo, facilitar a memorização e reforçar uma ideia.
Um trecho volta repetidamente.
A estrutura se repete com pequenas mudanças.
A repetição não é acidente: ela ajuda a criar ritmo e memória.
09 — Amor × amigo. Não confunda!
Cantiga de amor
- Voz masculina
- Mulher idealizada
- Amor cortês
- Linguagem mais elevada
- Sofrimento amoroso
Cantiga de amigo
- Voz feminina
- Amado ausente
- Saudade / encontro
- Caráter mais popular
- Repetição e musicalidade
Amor = homem · Amigo = mulher
“Cantiga de amigo” não significa amizade. Aqui, “amigo” significa amado.
10 — Escárnio e maldizer
Agora saímos do amor e entramos na sátira. Essas cantigas usam humor e crítica para atacar comportamentos ou pessoas.
“Vou provocar sem dizer tudo claramente.” Ironia, duplo sentido, ambiguidade.
“Vou dizer na cara.” O alvo pode ser atacado de maneira explícita.
O mundo começa a mudar
Humanismo
A Idade Média não terminou de um dia para o outro. Surge um período de transição.
Na mentalidade medieval, Deus estava no centro. No Humanismo, começa a ganhar espaço uma nova valorização: o ser humano. Isso não significa que as pessoas deixaram de acreditar em Deus. Cuidado: a mudança é mais complexa.
Theo = Deus. O mundo é interpretado a partir da centralidade divina.
Antropo = ser humano. O ser humano passa a ser valorizado como objeto de reflexão e conhecimento.
Não é uma troca de botão. É uma mudança gradual de perspectiva.
O que mudou na literatura?
Produzida no ambiente das cortes.
A história recebe tratamento literário e documental.
E aqui aparece o nome: Gil Vicente.
16 — Gil Vicente
Um dos principais nomes do teatro português do Humanismo. Suas peças utilizavam humor, personagens reconhecíveis, linguagem variada e crítica aos comportamentos sociais.
Ele não queria simplesmente “destruir” a sociedade. As peças mostram vícios e comportamentos inadequados — com forte intenção moralizante.
Como ele fazia crítica?
Corrupto.
Desonesto.
Que não age como prega.
Vaidoso.
O público reconhece aquele comportamento e pensa: “Olha só esse personagem!” A graça está em perceber: “Será que existe alguém assim na sociedade?”
18 — Típico e alegórico
Representa um grupo social. O juiz corrupto não é só “João, o juiz”: é o comportamento de uma classe em determinada situação.
Representa uma ideia. O anjo pode representar o Bem; o diabo, o Mal.
Típico = tipo de pessoa · Alegórico = ideia
20 — A linguagem também mostra quem é
Gil Vicente fazia algo muito interessante: a forma de falar ajuda a construir a personagem. Um nobre pode falar de maneira diferente de um camponês. Um malandro pode usar outra linguagem.
Personagem → comportamento + linguagem → grupo social reconhecível
21 — Autos e farsas
Geralmente ligado a temas religiosos e moralizantes. Auto = moral / religião.
Peça cômica ligada a situações do cotidiano. Farsa = cotidiano / comédia.
22 — Auto da Barca do Inferno
Imagine um lugar depois da morte. Há duas barcas. As personagens chegam uma por uma, carregando aquilo que revela seus vícios.
Leva os que podem alcançar a salvação.
Leva os condenados pelos seus comportamentos.
O Sapateiro chega com objetos do trabalho. O Diabo usa isso para revelar comportamentos desonestos. A personagem tenta se justificar. O julgamento revela: participar de rituais religiosos não apaga automaticamente condutas condenáveis.
O humor nasce do contraste: o que a personagem pensa que é × o que ela realmente faz.
25 — O Sapateiro
Ele tenta convencer o Diabo de que merece uma passagem melhor. Menciona práticas religiosas. Mas o Diabo aponta outro aspecto: ele teria enganado clientes durante anos.
Aparência religiosa ≠ boa conduta
Não basta parecer correto; é preciso agir de acordo com os valores que se defende.
26 — Por que as personagens carregam objetos?
Os objetos funcionam como símbolos. Ajudam o público a identificar o trabalho, o comportamento, o vício e a crítica.
Objeto → personagem → vício / comportamento
Quem é essa personagem?
O que ela fez de errado?
O que a peça quer mostrar?
O que ela pensa que é
- “Fiz coisas religiosas”
- “Mereço a barca da Glória”
O que ela realmente faz
- Enganou clientes
- O objeto denuncia o vício
27 — O teatro tem ritmo
Gil Vicente utilizava versos, rimas e ritmo. Isso tornava os diálogos mais ágeis, mais divertidos e mais fáceis de acompanhar.
Humor + crítica + moral. Se a questão citar Gil Vicente, procure esses três eixos.
O grande mapa
O que você precisa saber de verdade
A literatura muda porque o mundo também muda.
Teste final
1. Um homem se coloca como servo de uma mulher idealizada e sofre por não alcançá-la.
Resposta: cantiga de amor.
2. Uma mulher lamenta a ausência do amado e usa repetição de versos.
Resposta: cantiga de amigo.
3. Um texto critica alguém de maneira indireta, com ironia.
Resposta: cantiga de escárnio.
4. Um texto faz crítica direta e explícita.
Resposta: cantiga de maldizer.
5. Qual é a principal diferença entre teocentrismo e antropocentrismo?
Resposta: o teocentrismo coloca Deus no centro; o antropocentrismo enfatiza a valorização do ser humano.
6. O Humanismo significa que as pessoas deixaram de acreditar em Deus?
Resposta: não. As duas perspectivas podem coexistir no período de transição.
7. Uma personagem representa um grupo social. Que tipo é?
Resposta: personagem típico.
8. Uma personagem representa uma ideia, como o Bem ou o Mal.
Resposta: personagem alegórico.
9. Qual é a diferença básica entre auto e farsa?
Resposta: o auto tem temática religiosa e moralizante; a farsa explora o cotidiano com comédia.
10. Por que o Sapateiro é criticado no Auto da Barca do Inferno?
Resposta: apesar de alegar práticas religiosas, é acusado de comportamentos desonestos no trabalho.
Leia o enunciado e procure a lógica — não a palavra decorada.
Desafio: “Quem sou eu?”
Homem apaixonado, amada acima dele, não a alcança, sofre. → Cantiga de amor
Mulher, amado distante, estruturas repetidas, saudade. → Cantiga de amigo
Critico sem dizer tudo; uso ironia. → Escárnio
Critico diretamente. → Maldizer
Represento um grupo social. → Personagem típico
Represento uma ideia. → Personagem alegórico
Mapa de memória
Homem → mulher → idealização → coita
Mulher → amado → saudade → repetição
Crítica indireta
Crítica direta
O ser humano ganha destaque
Humor + crítica + moral
Grupo social / ideia
Religião + moral / cotidiano + comédia
Na Idade Média, Deus ocupa o centro. No Trovadorismo, o amor segue regras. No Humanismo, o ser humano ganha novo destaque. Com Gil Vicente, o teatro usa humor para mostrar e criticar comportamentos sociais.